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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Professora fala sobre Zélia Gattai na Flica: 'Reinventou o feminino'

Segunda mesa desta quinta foi intitulada '100 anos de Zélia Gattai'.
Debate teve a presença de Maria João Amado, neta de Zélia e Jorge Amado.

A partir da esquerda: Maria João Amado, a mediarora Mira Silva e a professora Jailma Pedreira 
(Foto: Egi Santana/Flica)

"Uma dona de casa que também era escritora. Reinventou o feminino: mostrou que, para além dos afazeres domésticos, também poderia ser uma ótima contadora de histórias". Assim a professora Jailma Pedreira resumiu a trajetória de Zélia Gattai, escritora paulista de "alma baiana" que completaria 100 anos no dia 2 de julho de 2016 se estivesse viva. As histórias de vida da esposa de Jorge Amado, que despertou para o público como artista literária aos 63 anos de idade, foi o tema da segunda e última mesa do primeiro dia da 6ª edição da Flica, nesta quinta-feira (13). Intitulada "100 anos de Zélia Gattai", a mesa contou com a participação também da neta de Zélia, Maria João Amado, e foi mediada por Mira Silva, diretora do programa Aprovado, da Rede Bahia.

Obras como "Anarquistas, graças a Deus" (1979), primeiro livro escrito por Zélia, em que falava sobre os pais italianos, a infância e a chegada ao Brasil, e "Um chapéu para viagem" (1982), em que relatou como se deu o relacionamento com Jorge durante a Ditadura Militar, foram temas da discussão.

"A narrativa de Zélia é como se ela contasse uma história por meio de uma conversa. Como se estivesse falando com a gente. São aspectos próprios da sua forma de escrever. Foi de uma extrema importância para a discussão das questões do feminino. Mostrou que a mulher pode ser muito mais que uma dona de casa. Foi fotógrafa, escreveu, dirigiu. E fazia tudo muito bem. Ajudou a desfazer essa imagem de dona de casa. A Casa do Rio Vermelho, onde escreveu os livros, foi o lugar de contar histórias. A casa, para ela, ao invés de aprisionamento, foi sinônimo de liberdade", disse Jailma.

Maria contou que a casa do Rio Vermelho sempre foi um lugar de inspiração tanto para a avó quanto para Jorge. "Era o lugar dos dois, um lugar de vivência. Lá, todos sempre tinham olhos para ver as coisas simples e transformá-las em beleza. Ela escrevia olhando para a janela. Mas era uma casa normal, como todas as outras. E ela quando estava escrevendo sempre era interrompida pelos netos que a pediam para contar histórias, por outra pessoa dizendo que o gás tinha acabado. Ela foi sempre secretária dele [Jorge] e passava a limpo os textos dele. Não pensava em ser escritora porque dizia que já tínhamos um escritor em casa. Mas depois de tanto insistirmos, decidiu escrever", disse a neta de Zélia.

A professora Jailma destacou que o trabalho de Zélia foi importante sobretudo para quebrar com a ideologia de que a escrita das mulheres não tinha valor e que se perdurou por muito tempo. "As mulheres até escreviam, mas não chegavam a publicar porque acreditou-se por muito tempo que era algo sem valor. Isso porque as mulheres falavam mais da vida, do cotidiano. Muitas dessas escritas, pela falta desse reconhecimento, não saíam da gaveta. Zélia mostra que é preciso dar importância pra essa voz feminina, pra esse outro olhar sobre a escrita. É fundamental isso. As mulheres foram consideradas com uma visão de natureza de reprodução. As mulheres negras, por exemplo, só viam sobre si recair estereótipos negativos, mas nunca o de escritora. Zélia ajuda a mudar esse quadro", afirma.

Neta de Zélia Gattai diz que a avó não pensava em
ser escritora, porque dizia que já havia um escritor
na casa (Foto: Egi Santana/Flica)

Sobre Zelia e Jorge, Maria conta que os dois tinham uma ótima convivência e que brigas eram difíceis de ocorrer. "Ela dizia que Jorge era um homem tão bom. Brigas ocorriam de vez em quando, mas com o passar do tempo foram ficado cada vez mais raras. Ela dizia que não se importava com coisas simples que ele fazia e que poderia resultar em discussão dos dois. Dizia que nao tinha necessidade de criar atrito. Ela foi a pessoa que conheci que mais tinha autoestima. Era muito otimista. Quem lê, sabe que até quando falava sobre dificuldades, ela trazia isso de forma leve", disse Maria João.

Durante o bate-papo, Maria falou ainda sobre a gastronomia da casa do Rio Vermelho e mostrou ao público bonecas de pano feitas pela avó e que foram dadas a ela e ao irmão de presente. Sobre a avó, diz tratar-se de uma pessoa especial. "As pessoas que tiveram oportunidade de conhecer Zélia, puderam conhecer seu lado mais especial. A minha relação com ela foi sempre muito próxima. Era a melhor de todas, era sensacional. Não esqueço de nenhum detalhe, das suas memórias, do seus gostos e cheiros, das brincadeiras. Foi uma vivência muito rica".

SERVIÇO
O que: Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica)/ Fliquinha
Quando: De 13 a 16 de outubro
Onde: Cachoeira (BA)
PROGRAMAÇÃO DE DEBATES

Sexta 14/10
Mesa 3 – 10h
“Do Éden à Finlândia”
Eduardo Spohr e Scarlet Rose
Mediação: Suzane Lima Costa

Mesa 4 – 15h
“A voz do autor”
Miltom Hatoum e João Filho
Mediação: Mirella Márcia

Mesa 5 – 19h
“O mar, um mapa, a audácia”
Ana Maria Machado conversa com Mônica Menezes

Sábado 15/10
Mesa 6 – 10h
“Histórias de humor sutil, micromundos familiares e fratura generalizada”
Juan Gabriel Vásquez (Colômbia) e Antonio Prata
Mediação: Zulu Araújo

Mesa 7 – 14h
"Exílios interiores"
Ana Martins Marques e Ângela Vilma
Mediação: Mônica Menezes

Mesa 8 – 17h
“As águas dos contrassonetos e os olhos da vândala insubmissão”
Conceição Evaristo e Alex Simões
Mediação: Lívia Natália

Mesa 9 – 20h
“Entre cidades atlânticas”
Kabengele Munanga (Congo) e Goli Guerreiro
Mediação: Zulu Araújo

Domingo 16/10
Mesa 10 – 10h
Caruru dos 7 Poetas na Flica

Quinta-feira (13)
9h30 - Professora e contadora de histórias Regina Campana.
10h30 - A autora Silvana Oliveira bate um papo com a criançada.
11h30 - Poeta, performer e bottom-maker curitibano Hélio Leites também faz contação de história.
14h30 - Peça “Luiz Gama – Em Processo”, da companhia A Roda. O espetáculo é inspirado na história do baiano Luiz Gama, considerado um dos maiores abolicionistas do Brasil.
15h30 - Bate-papo com a designer e escritora Tamires Lima.
16h30 - Sessão FICI Fliquinha, que exibirá sete curtas brasileiros para os pequenos.
19h30 - Palestra “Do Apocalipse ao Édem”, mediada por Suzane Lima Costa.

Sexta-feira (14)
9h30 - Contação de história de Lídia Hortélio, do filme “Tarja Branca”.
10h30  - Bate-papo com a autora Nathalie Guerreiro
11h30 - Apresentação musical do grupo Pé de Moleca
14h30 - Espetáculo teatral “Imagina Só”, do jornalista e dramaturgo Edson Rodrigues. O espetáculo inaugura o repertório da Companhia Novos Novos, grupo artístico infanto-juvenil, fundado pela artista Débora Landim, em 2000, no Teatro Vila Velha.
Bate-papo com Roseana Murray, poeta contemporâneas voltada para crianças e jovens.
16h30: Bate-papo é com o cantor, compositor e multi-instrumentista Carlinhos Brown.
Brown apresenta Paxuá, Paramim e Braúna - Aventuras Eletrizantes. O espetáculo promove uma reflexão e um diálogo sobre o uso eficiente e seguro da energia elétrica, sensibilizando para a mudança de hábitos das crianças e seus familiares.

Sábado (15)
9h30 - Companhia Casa de Barro, ONG de Cachoeira, apresenta o espetáculo “Eu Vi o Rio Rir”.
10h30 - Autor e ilustrador André Neves conversa com as crianças
11h30 - Escritora Vanda Machado e e o grupo de teatro Griô, trazem cantigas de rodas e contam histórias para os pequenos. Na ocasião, Vanda lança o livro “Galinha Conquém”, história mítica que tem origem na África e que trata da convivência entre as pessoas e o meio ambiente.
14h30 - Autora do livro “Adestradora de Galinhas” e diretora teatral baiana Adelice Souza conversa com o público.
15h30 - Mágico Mingau.
16h30 - Show da banda Playgrude, liderada pela cantora Marcela Bellas.

Domingo (16)
10h - Apresentação do grupo Étnico Cultural da Bahia e Orquestra de Xequerê.

PROGRAMAÇÃO NOTURNA
A programação noturna da Fliquinha é pensada especialmente para os pais e educadores das crianças.

Quinta-feira, 19h30
Mediada por Suzane Lima Costa, acontece a palestra “Do Apocalipse ao Édem”, a partir das 19h30.

Sexta-feira, às 19h30
Roseana Murray, considerada uma das mais importantes poetas contemporâneas em poesia para crianças e jovens, bate um papo com o público, principalmente com os coordenadores e professores das instituições de ensino público.

Sábado (15), 18h45
Exibição do filme “O Começo da Vida” e debate com a psicóloga Claudia Mascarenhas. O debate será mediado por Mira Silva, uma das curadoras da Fliquinha.

Professora Jailma Pedreira disse que Zélia Gattai mostrou que, além dos afazeres domésticos, a mulher também poderia ser uma ótima contadora de histórias (Foto: Egi Santana/Flica)

Alan Tiago Alves
Do G1 BA, em Cachoeira

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